Pedra lunar presente dos EUA está 'esquecida' em universidade gaúcha

Em Bagé, cidade gaúcha próxima ao Uruguai, a reverência à personalidade local mais conhecida, o ex-presidente Emílio Garrastazu Médici (1905-1985), está por toda parte: nomes de prédios, placas e uma exposição de objetos pessoais.

A principal fortuna que o presidente entre 1969 e 1974 deixou para a cidade, porém, está escondida em um cofre de uma universidade local.

Em 1973, o militar, que comandou o país no auge da ditadura, recebeu um presente inusitado do então presidente americano Richard Nixon (1913-1994): uma pedra trazida da Lua por astronautas.


Felpe Bächtold/Folhapress

Pedra lunar, acomodada em cilindro de acrílico, está em universidade em Bagé (RS)


O fragmento foi doado anos depois pelo general ao museu de sua cidade, mantido pela universidade privada local Urcamp (Universidade da Região da Campanha).

Apesar do aspecto de pedaço de carvão e de seu peso de pouco mais de um grama, o valor da pedra pode alcançar milhões de dólares no mercado negro.

O fragmento foi exposto por anos no Museu Dom Diogo de Souza sem ser muito notado. Até o dia em que reportagem em uma revista abordou o caso de uma outra pedra similar, furtada do governo de Honduras e avaliada à época em US$ 5 milhões.

A direção da universidade decidiu retirar a relíquia de exposição e, há mais de dez anos, nenhum visitante pode observar o objeto histórico.

SEM PATROCÍNIO

Em 2012, a gestão do museu tentou organizar uma exposição sobre o espaço na qual a pedra seria a grande atração. Não conseguiu levantar R$ 80 mil necessários para o patrocínio, e o objeto de origem espacial continua guardado a sete chaves, em local não revelado.

A pedra fica acomodada em uma esfera de acrílico pouco menor do que uma laranja. A redoma está fixada em uma placa de madeira, com inscrições em inglês falando em "símbolo do esforço humano".

Um trauma na história do local contribui para o temor de furto: em 1989, o museu foi arrombado e teve objetos levados. Atualmente, um zelador durante o dia e outro à noite cuidam do acervo.
Editoria de Arte/Folhapress



A universidade não pretende deixar a pedra em exposição permanente. Em uma mostra temporária, a ideia é pedir auxílio ao Exército, que iria atuar na vigilância.

A reitora, Lia Quintana, afirma que não há como arcar com os custos de uma exibição ininterrupta. "É como um quadro valioso", diz.

Para piorar a situação, a Urcamp enfrenta uma crise financeira e esteve ameaçada de ter seu principal prédio levado a leilão neste ano. O orçamento anual da instituição é de R$ 45 milhões.
A Folha foi autorizada a fotografar a pedra. Mas teve de esperar 40 minutos até que a direção da universidade retirasse a pedra do esconderijo.

Em Bagé, cidade de 117 mil habitantes, há quem desconheça a existência do objeto.

CASUALIDADE


O advogado Fernando Sérgio Lobato, 66, diz que o fragmento foi parar no acervo do museu de maneira quase casual. Nos anos 1970, após Médici deixar a Presidência, Lobato era advogado dele e o ajudava com processos sobre escrituras de fazendas. Não cobrava honorários.

Ele conta que certa vez visitou uma sala onde o presidente expunha objetos pessoais. "Tinha camisas de futebol autografadas. Ele perguntou se eu tinha uma escolha ali para fazer como presente. Eu disse que tinha escolhido a pedra da Lua: 'Quero que o senhor dê para o museu de Bagé'."

E assim foi feito. Por pouco a pedra não ficou esquecida na coleção particular do presidente.

GRUPO RASTREIA ROCHAS


studantes americanos liderados por um ex-investigador da Nasa (agência espacial dos EUA) tentam há anos descobrir o paradeiro de pedras lunares como a que foi doada ao Brasil nos anos 1970.

Os Estados Unidos distribuíram naquela década fragmentos de uma pedra conhecida como "rocha da boa vontade" para 130 países e para os 50 governadores americanos.
Os alunos do ex-investigador Joseph Gutheinz afirmam que já conseguiram rastrear, desde 1998, 79 dos fragmentos dados como presentes.

Se parte dos souvenires está exposta em locais de prestígio, como o Museu Alemão de Munique, dezenas ainda têm o destino desconhecido.

À Folha, questionado sobre a situação da pedra de Bagé, Gutheinz, que é professor de direito, diz que a peça pode ser exposta e protegida ao mesmo tempo. "A Nasa faz isso o tempo todo. Todas deveriam estar em exibição para o maior número possível de crianças."

janeiro 06, 2013
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