Nós precisamos falar sobre Parará-tim-bum

O que fazer com as crianças quando uma música-chiclete invade as ruas e chega a sua casa sexualizando o lúdico prazer de dançar? 

MC paulista de 20 anos, Tati Zaqui estourou no carnaval fantasiada de Branca de Neve, ao lado de duas "princesas" e cercada pelos sete anões, entoando o funk Parará-tim-bum. Foto: Divulgação

"Eu vou, eu vou..." À primeira escuta, o refrão parece mesmo ser o da inocente canção do clássico infantil Branca de Neve e os sete anões, mas a melodia é de um funk que fez sucesso no carnaval e continua sendo tocado e cantado por adultos, adolescentes e crianças por todo o Brasil. O Parará-tim-bum, entoado pela MC paulista Tati Zaqui, de 20 anos, chama a atenção especial de meninas e meninos, atraídos pela familiaridade sonora e pelo figurino da cantora, que entra em cena fantasiada da princesa.

Música e dança aguçam a curiosidade para a sexualidade por meio da coreografia e também da letra, que faz alusão não apenas ao ato sexual, mas também à pedofilia: "Deixa, senta/ Menino não se esqueça/ Mexer com essa novinha/ Vai te dar dor de cabeça/ Deixa, deixa/ Mostrar como ela faz/ Depois de alguns dias/ Tu vai tá pedindo mais”. O clipe, disponível no YouTube, potencializa a exposição, acessível após uma simples busca na internet. O vídeo tem milhões de acessos na web, no canal da cantora e em gravações de fãs dançando. A performance aparece também em programas de televisão e shows de outros artistas, como a cantora Anitta e a banda Aviões do Forró.

Por mais que as famílias não costumem escutar músicas desse tipo em casa, canções de duplo sentido ou que fazem apologia ao sexo e a um crime sexual acabam chegando aos ouvidos de crianças e adolescentes, ainda em formação. Como proceder? Deixar as crianças cantarem sem interferir (afinal, talvez isso acabe atraindo mais atenção), dizer que não é legal e arriscar ouvir o tradicional "por quê?", dando início a uma conversa sobre o assunto? Uma dúvida que parece simples, muitas vezes se torna um dilema para pais e mães, na legítima vontade de acertar e fazer o melhor possível na educação (também sexual) de seus filhos.

Para Karla Nascimento, psicóloga clínica e psicomotricista relacional, antes de tudo, os pais precisam fazer uma auto-avaliação sobre como essas músicas estão entrando no ambiente familiar e se é possível uma mudança. "Quando a pessoa se torna pai precisa ajustar o comportamento para servir de exemplo. Muitas vezes, a simples reação de achar graça significa para criança uma aprovação. "Depende de como eu vivo, da forma como me comporto como pai. Isso muitas vezes é o mais difícil", alerta.


Para a psicóloga Karla Nascimento, a simples reação dos pais achando graça na música, para a criança significa uma aprovação: "Quando a pessoa se torna pai precisa ajustar o comportamento para servir de exemplo". Foto: Acervo pessoal 

Os passos seguintes seriam o diálogo e uma análise personalizada da criança "Os pais precisam ver as crianças de forma individualizada. Nem sempre fingir que não está sendo dito nada é legal", aponta Karla. Para medir esse nível de compreensão, uma orientação é perguntar: "Você sabe do que essa música fala? O que você acha engraçado?" Assim, explica a especialista, é possível saber até onde ela entende e o que é preciso explicar. "A conversa pode começar falando que se trata de algo do nosso corpo e não devemos tratar de uma uma forma qualquer o nosso corpo, expondo-o. O exemplo, sempre, é um aliado, se podemos lembrar que esse tipo de comportamento não é visto em casa, na família". Para Karla, com o diálogo, com limites, é possível conseguir o meio termo sem supervalorizar nem desvalorizar o assunto.

Reação - Não há regras, mas geralmente, o comportamento é similar em diferentes faixas etárias, o que pode ajudar na orientação dos pais: " Até os quatro anos de idade, geralmente a criança não tem conhecimento exato do que está sendo dito. Mas não é uma regra. Umas são mais expostas e espertas para essas questões e desenvolvem interesse mais cedo pela sexualidade. Após essa idade, a criança começa a perceber que aquilo incomoda, mas não percebe exatamente o que é e muitas vezes canta ou repete por uma questão de provocação.

Todos os finais de semana, a versão do Parará-tim-bum ecoa pela praia do Janga, em Paulita. A enteada da auxiliar administrativa, de três anos de idade, ouve e canta a música. "No bairro é muito ouvida, não tem como não aprender. Mas temos a consciência de que ela não tem o entendimento. O pai não reprime e procura entrar na brincadeira, levando para o lado da Branca de
Neve de verdade", explica.

“Na verdade, a criança quer que alguém explique", opina Karla Nascimento. Segundo a psicóloga, dependendo dessa construção, da forma de atuar dos pais, quando chegam à adolescência ou mesmo por volta de 10 ou 11 anos, essas crianças conseguem fazer escolhas do que devem e não devem ouvir ou repetir. Conscientes, elas conseguem se dar esse tempo. "Dependendo do perfil da criança, mesmo que ouçam na escola de um colega que é mais estimulado, elas começam a ver de forma errada, sentem um incômodo e chegam a dizer 'eca' porque ainda não têm maturidade para entender, mas conseguem dizer não aos estímulos externos. Isso é possível", tranquiliza. 

Na casa de uma gerente de vendas de 45 anos, no bairro de Casa Forte, a Branca de Neve erotizada não teve espaço com os filhos de sete e 10 anos, ambos do sexo masculino. "Não lembro de tê-los visto ouvindo ou cantando essa música. Eles acessam pouco a internet. Apenas na sexta-feira à noite, com supervisão. Não assistem à novela das 21h, não ficam vendo televisão até tarde. Monitoro, não é livre. Em casa existe certo controle, tudo eu comento se pode ou não. Digo: se é violento, não gosto. Eles sabem que não vou permitir", comenta.

Mas outras canções de duplo sentido, como Muriçoca e Lepo Lepo fazem parte do "repertório" dos meninos, a mãe admite. "Na minha frente eles cantam pouco. Não faço comentário que não devem cantar porque não acontece com frequência. Eles não escutam esse tipo de música em casa. Acredito que na escola ou em um ambiente com colegas isso possa acontecer, porque um estimula o outro. Mas não proíbo. Se faz pouco, evidencia-se pouco. Nunca percebi uma necessidade", reflete.

Na avaliação da psicóloga Karla Nascimento, pais que conseguem lidar com questões dessa natureza da melhor forma são os que não reprimem, que tratam a criança com naturalidade mas respeitando o seu tempo, e que vivem a própria sexualidade de forma saudável.

* Os nomes das mães entrevistadas nesta reportagem foram omitidos para não expor as crianças e em cumprimento ao Estatuto da Criança e do Adolescente.


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