Governo de SP diz que fez sua parte na crise da água. Será?

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Vanessa Barbosa, de EXAME.com 

      O Estado de São Paulo caminha para um colapso hídrico. E todo mundo tem culpa nesse cartório, incluindo aí o mau humor de São Pedro. As exceções são o governo paulista e a Sabesp, certo? Ao que parece, essa é a opinião das autoridades paulistas sobre a crise de água que ameaça a maior economia do país e promete submeter milhões de pessoas à restrições severas.

Em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, nesta quinta-feira (29), o subsecretário de Comunicação do governo do Estado de São Paulo, Márcio Aith, afirma que o “governo está fazendo a sua parte” e acusa abertamente a imprensa (a qual chama de “cínica e covarde”) de fazer intriga contra o governo de São Paulo, juntamente com outros entes federativos.

Seu principal argumento em defesa do estado é o de que a população tem sido devidamente alertada da crise, por meio de uma série de campanhas que a Sabesp promove desde janeiro de 2014. Para reforçar sua tese, Aith também faz referência aos programas de bônus e ônus que o governo adotou (“antes de qualquer Estado”) e algumas das obras para aumentar a disponibilidade de água.

Segundo ele, a imprensa deliberadamente ignora esses “fatos” e prefere colocar a culpa no governo pela falta de água por simples pensamento comodista ou “rabo preso”.

Segundo especialistas ouvidos por EXAME.com, o governo de São Paulo não está fazendo a sua parte para conservar os recursos hídricos, nem na atual crise, nem antes dela.

O Sudeste vive sob constante estresse hídrico. Isto é um fato. A região dispõe, apenas, de 6% dos recursos hídricos do país para abastecer mais de 40% da população brasileira.

Além disso, o risco de colapso do Cantareira já era velho conhecido da Sabesp e do próprio governo do estado. Apesar disso, as obras necessárias para reduzir a dependência do principal sistema de abastecimento paulista não foram feitas.

Outro fato pouco abordado é que tão importante quanto ter água em quantidade é ter água de boa qualidade. Em pleno século 21, São Paulo deixa de tratar quase 57% dos esgotos gerados, segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Saneamento Básico do Ministério das Cidades. Toda essa água suja ameaça as reservas limpas e encarece os custos de tratamento no futuro.

Além de descuidar da saúde dos recursos hídricos, o governo paulista também parece ignorar a importância das matas ciliares e das áreas verdes na preservação dos mananciais. Conforme mostrou levantamento da ONG SOS Mata Atlântica, a região da Cantareira tem hoje apenas 20% de sua vegetação original.

A verdade é que São Paulo não vive uma situação confortável em relação à água há muito tempo. É de causar surpresa, por tanto, que os alertas para a população tenham ocorrido tão tardiamente.

“Essa crise se desenha desde o segundo semestre de 2013. Medidas necessárias já deveriam ter sido tomadas naquele momento. Já deveríamos ter começado o racionamento. Acredito que essas campanhas não foram suficientes e nem são suficientes. Elas deveríam ter sido intensificadas para apresentar a gravidade do problema”, diz Roberta Baptista Rodrigues, doutora em recursos hídricos e professora dos cursos de Engenharia Ambiental e Sanitária e de Engenharia Civil da Universidade Anhembi Morumbi.

“Por outro lado, tínhamos o governador Geraldo Alckmin dizendo, repetidas vezes, que não está faltando água e que não faltará água. É uma afirmação completamente contraditória. Fica difícil querer conscientizar a população desse jeito”, afirma a especialista.

Para Roberta, a crise poderia ter sido aproveitada num contexto mais educativo se o governo tivesse decretado racionamento há mais tempo. “Você pode avisar a população sobre o problema, mas a percepção é muito maior a partir do corte efetivo”, afirma.

Reinaldo Dias, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas, mestre em Ciência Política e doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, diz que o governo não está preparado para lidar com os extremos do clima e tampouco prepara de forma adequada a população.

“Campanhas pontuais de conscientização quando a crise já está instalada não adiantam de nada. É necessário um programa educativo de fôlego e longo prazo para gerar consciência”, afirma Dias.

Para ele, a estrutura curricular das escolas está longe de abarcar satisfatoriamente os grandes desafios ambientais da atualidade, sendo a escassez da água um deles. Ele defende, ainda, que não se pode transferir para a imprensa as responsabilidades que são do governo e que, apesar disso, os meios de comunicação estão contribuindo, em muito, para a mudança de posturas.

“Existem três tipos de educação ambiental: a educação formal que se dá por ações e programas promovidos pelos governos (como a definição de grades curriculares que abordem o meio ambiente); um segundo tipo, que envolve a participação voluntária do educador (quando, por exemplo, um professor resolve levar um artigo de jornal para discutir em sala de aula); e o terceiro tipo, a chamada educação informal, que é promovida pelas informações veiculadas na imprensa. De todos os três tipos, a imprensa é que atua com mais força. Agora, a estrutura curricular, que é obrigação do estado, essa não ocorre”.

fevereiro 01, 2015
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