Uma Entrevista com Beakman, o cientista

Por Paula Rothman, de INFO Online

Divulgação


        Fato: se você foi criança ou adolescente no início da década de 90, tem grandes de chances de ter passado muitas horas da sua vida na companhia de Paul Zaloom.

O homem da foto, munido de uma peruca espetada e seu inconfundível jaleco verde, é capaz de despertar a memória de quem não perdia os experimentos amalucados no Mundo de Beakman.


O premiado programa, ganhador de um Emmy, foi produzido entre 1992 e 1997 e ainda passa nos Estados Unidos. Em janeiro, voltou ao Brasil na TV Cultura – canal aonde fez sucesso no início dos anos 90. Ao todo, os 91 episódios de O Mundo de Beakman foram e ainda são transmitidos em mais de 20 países – além de EUA e Brasil, Canadá, México e Coréia são alguns deles.

O sucesso se deve, em grande parte, a Zaloom, o nova iorquino de 59 anos que deu vida ao personagem-título. Para a felicidade dos fãs, pode-se dizer que Paul é, na verdade, o próprio Beakman. Ou, como ele define: “o Beakman é minha versão exagerada”.

Atualmente morando na Califórnia, Zaloom falou a INFO Online enquanto batia um shake de proteínas, parte de sua rotina saudável que envolve não comer carnes (apenas peixe, às vezes) e praticar natação, musculação e ioga. “Os exercícios impedem que eu fique louco”, ri ele.

Aclamado pelo The New York Times como “um dos mais talentosos e originais satiristas políticos trabalhado no teatro”, Paul fala sobre os mais variados assuntos com a facilidade de quem, há muitos anos, consegue explicar física e química a crianças de seis anos. Em duas horas de conversa, ele contou sobre sua experiência na TV, as lembranças de Mark Ritts (o Rato Lester), sua faculdade hippie-alternativa, o dinheiro que recebe (ou não) pelos direitos do programa e sobre sua maior felicidade: ser avô.

Como você virou o Beakman?

O pessoal que estava produzindo o show tentou escalar o papel em Hollywood, mas não achavam ninguém que tivesse a sensibilidade necessária (risos). O diretor do programa, Jay Dubin, me conhecia dos anos 80 em Nova York e pensou: “talvez esse cara possa fazê-lo”. Ele me ligou - fazia anos que não nos falávamos – e pediu uma fita minha, para mostrar ao estúdio. Enviei uma apresentação que havia filmado sobre comida e o pessoal gostou! Fui chamado para uma audição na qual tudo deu errado: derrubei garrafas de água e acabei tendo que improvisar algo na hora. E deu certo.

Quanto do Paul existe no Beakman?

(risos) Muito. É uma exageração de mim mesmo. Mais sotaque de Nova York, mais mãos se mexendo... Sou eu, mas “cartoonizado”(transformado em animação). Lembro que o produtor executivo do programa disse que eu deveria apenas ser eu mesmo quando estou agitado.

Então você ajudou a criar o personagem?

O programa era baseado em uma tira de quadrinhos Chamada “U Can with Beakman and Jacks”, do cartunista Jok Church. Nas tirinhas, que saíam em centenas de jornais no país, o personagem Beakman respondia às perguntas dos leitores. Bom, acontece que tornou-se lei nos Estados Unidos que deveria haver uma quantidade mínima de programas infantis todos os dias nas emissoras regionais (quatro horas). O programa foi criado pelo The Learning Channel e passava em muitas dessas pequenas emissoras (225 em sua estréia). Depois da primeira temporada, a CBS comprou os direitos e passou a exibi-los todas as manhãs em rede nacional, e depois para mais de 20 países. Aliás, eu não sou pago por nenhuma retransmissão fora do país. Eu não sou rico, ao contrário do que muita gente pensa. É difícil sobreviver nos Estados Unidos como artista... As emissoras fazem um acordo antecipado pelo o que for vendido no futuro.

Mas você esteve envolvido na pré-produção do programa?

Sim. Eu não sou creditado como escritor ou criador porque o estúdio não queria me pagar mais. Mas me voluntariei para ajudar a criar o programa de qualquer forma. Pensei que seria divertido e de grande ajuda. E foi exatamente assim.

Vocês tinham alguma equipe de cientistas ajudando?

Havia um professor de ciências que ajudava nessa parte técnica. Tínhamos também uma grande equipe: escritores, produtores, músicos... Mark Mothersbaugh, que é um grande compositor, fez a música das duas primeiras temporadas.

E quanto aos outros atores do Mundo de Beakman? Vocês ficaram amigos?

Sim. Eles são todas pessoas ótimas. Nós nos divertíamos muito no set e nos encontramos ainda, de tempos em tempos.

O Rato Lester era com certeza um personagem muito querido do público. Pelo que você disse, imagino que tenham sido próximos também. Como foi receber a notícia de seu falecimento? (Mark Ritts, o Rato Lester, faleceu em 2009).

Eu passei muito tempo com o Mark no final de sua vida. Foi um tempo muito triste, e difícil, mas também foi um grande privilégio, uma honra e uma alegria estar com ele durante esses meses. O Mark era realmente um ser humano maravilhoso: gentil, amoroso, engraçado, sábio e um amigo incrível. E incrivelmente talentoso. Eu sinto muito a sua falta.

E quais as lembranças fortes que guarda do programa?

Lembro de uma vez que um jacaré foi até o estúdio. Ele estava preso mas, em um determinado momento, ele pulou em minha direção. Eu me assustei e saí correndo e gritando. Também houve um episódio com uma cobra – e eu não sou fã de cobras – que estava enrolada no pescoço do Lester enquanto filmávamos. Eu falava olhando para a câmera e, de repente, ela veio para o meu rosto. Minha reação foi a mesma: gritar e correr!


Aqui no Brasil, o Mundo de Beakman é um dos programas infantis mais elogiados da TV. O mesmo sucesso se repetiu em mais de 90 países... Qual é o segredo do sucesso?

Acho que é porque o show é engraçado e divertido. Ele é filmado de uma maneira muito interessante, com lentes do tipo grande angular e as câmeras trepidando. As câmeras, na verdade, nunca se mexiam, somente nós, atores. Acho que o programa também é popular com adultos porque eles gostam do humor. Além disso, eles acham que vão entender a ciência, uma vez que é um programa de ciências escrito para crianças. Aliás, a audiência do Mundo de Beakman nos Estados Unidos era 52% composta por adultos. Acho que era porque, como nos desenhos da Warner Bros, do Pernalonga, existe um nível de piadas para adultos e um para crianças.

E você? Passou a gostar de ciências durante o programa? Ou sempre gostou dela?

Tenho interesse especialmente em ciências naturais, por exemplo, a estrutura social das colônias de formigas ou castores em suas construções... São fascinantes. As espécies não-nativas de plantas e animais introduzidas no meio ambiente e todas as turbulências que elas causam são alguns dos assuntos de que eu trato em um dos meus shows para adultos. Também tenho interesse na física relacionada aos carros, caminhões e construção de estradas. Coisas bem velhas, mas esses assuntos são instigantes para mim.

Você ainda se apresenta como o Beakman pelos Estados Unidos, não?

Sim. Eu me apresento, ao vivo, em vários shows. O atual é chamado “Beakman on the Brain” (Beakman no Cérebro, estreou dia 28/01, no Califórnia Institute of Technology, CalTECH). Ele tem uma hora de duração e fala sobre o cérebro humano. Há bastante interação com a platéia e muito uso de bonecos... Tive ajuda de um neurocientista para elaborar tudo. Vamos nos apresentar nos Estados Unidos e Canadá. Aliás, eu realmente gostaria de ir para o Brasil me apresentar! Espero que um dia eu seja convidado (risos). Sempre quis visitar e trabalhar no Brasil... Talvez um dia meu sonho se realize. Juro que isso não é uma besteira de show bizz...


Mas você tem outras peças voltadas para adultos também... Inclusive recebu uma bela crítica do New York Times...

Sim. Na verdade, eu sempre fiz e ainda faço teatro de bonecos para adultos. Interpretar o Beakman mudou a minha vida, pois eu me tornei um apresentador infantil pela primeira vez - o que é uma coisa bem estranha para um manipulador de marionetes dizer. Geralmente, nos Estados Unidos, quem trabalha com bonecos faz basicamente trabalhos para crianças. Mas eu trabalhei com o Teatro Bread and Puppet, que é definitivamente um teatro não para crianças. E meus próprios shows de bonecos sempre foram para adultos, com tópicos sociais e políticos. Ah: e todos eles deveriam ser engraçados... Mas – quando digo que o Beakman mudou a minha vida, digo de um jeito positivo. Foi uma honra e um privilégio. Adoro crianças.


É divertido. E quando você se tornou um ator?

Comecei nas peças de teatro da escola quando tinha cinco anos. Me juntei ao Teatro Bread and Puppet em 1971, na faculdade, quando tinha 19 anos. Ainda trabalho com a companhia todos os verões. Minha filha Amanda participou do show quando era pequena. Este verão, sua filha Mabel participou do Bread and Puppet Circus. Então, agora, três gerações da família Zaloom trabalharam na companhia!

Zaloom é seu nome de verdade?

(risos) Sim. Todo mundo me pergunta isso. Zaloom é um nome sírio, vem do meu pai.

Você falou da sua filha... Tem só uma? E você é casado?

Eu fui casado duas vezes e tive uma filha incrível, a Amanda, hoje com 28 anos. Atualmente eu sou gay. Vai entender...

Sua filha assistia ao Mundo do Beakman? E sua neta?

A Amanda gostava muito e agora minhas netas Mabel, de 6 anos, e Sadie, de trê e meio, adoram também. Eu as amo muito também. Elas são adoráveis e elas riem das minhas piadas e bobeiras todo o tempo. Ser avô é ótimo. Eu não fazia ideia de que isso iria acontecer tão cedo na minha vida, mas foi uma ótima surpresa... Quando soube que seria avô pirei, chorei feito um bebê.

Voltando ao teatro... Você disse que entrou para o grupo de bonecos na faculdade. Qual curso você fez?

Bem, eu estudei na Goddard College, em Vermont. Me formei “bonequeiro” e foi lá que eu me juntei ao Bread and Puppet. Tudo o que eu fiz na minha faculdade hippie foi freqüentar o grupo... Lá era um lugar bem progressista. Uma escola totalmente hippie, sem notas, espírito livre...

O que seus pais acharam disso?

Meus pais nunca foram visitar a faculdade. Minha irmã foi e deu graças a Deus que eles nunca foram (risos). Em 1984 o ambiente de lá era meio como anos 80, anos 70. Quando saía com meus amigos de Nova York não podia contar as coisas da faculdade porque eles não acreditavam. Tipo... Havia dezenas de pessoas que viviam nos campus, e nos quartos, e que não eram alunos. Mesmo assim, elas frequentavam as aulas. Eram hippies. Na faculdade só havia duas regras: não era permitido ter cachorros e nem armas. Mesmo assim, havia um cara que praticava tiro todos os dias no pátio e ninguém ligava... Tudo o que fiz na faculdade foi viajar em turnê com o grupo. Escrevi um único trabalho na faculdade. Me formei em 1973...

E aí voltou para Nova York?

Sim. Eu nasci lá e cresci em Long Island. Depois da Faculdade em Vermont voltei para Manhattan por 18 anos. Eu tinha um loft lindo lá, em Tribecca e agora moro aqui, na Califórnia, em West Hollywood, bem no meio da cidade (o Los Angeles Times fez uma matéria com ele. Dá para ver as fotos da casa de Paul no link http://www.latimes.com/features/home/la-hm-0606-zaloom-pictures,0,6280273.photogallery ). A minha filha e as minhas netas moram em Vermont e as vejo sempre que posso – sempre! Aliás, tive um sonho engraçado com alguém se mudava para o prédio em que eu costumava morar em Nova York. Lá viviam só artistas e, no meu sonho, aparecia um cara com um grupo de 50 pessoas fazendo arte pra ele, mas era a pior m*** que eu já vi...

Você costuma sonhar sempre?

Sim. Acho que o último sonho que tive foi com a ansiedade de esquecer as falas do show. Quem trabalha com bonecos, e também os atores, têm bastante desse tipo de pesadelo!

Antes de O Mundo de Beakman você já havia trabalhado na TV?

Bem, fiz algumas aparições na TV, mas não significativas. Participei de um programa de TV local com Whoopi Goldberg, antes de ela se tornar A Whoopi Goldberg. Na verdade, não sou muito interessado em TV. Prefiro fazer meus próprios trabalhos, que eu mesmo invento... O Mundo de Beakman me permitiu muitos pitacos criativos. Foi uma bênção. Acho improvável que eu possa trabalhar de novo em um programa tão divertido e que me permitiu criar tão livremente. Bonecos permitem que a gente faça o que quiser. Você pode explodir o mundo, as coisas podem voar, e você não gasta um milhão de dólares nisso, como em Hollywood. Além disso, eu posso participar de tudo, fazer todos os papéis. Como ator, o que mais se poderia pedir?

Você fala com muito carinho do programa do Beakman. Até parece que o “mundo de Beakman” é o mundo de Paul..

Com certeza!

Você é muito reconhecido nas ruas pelo programa?

Olha... Talvez umas 15 vezes desde o começo da década de 90. E só. A peruca me manteve livre disso, o que é ótimo, mas... Algumas pessoas me dizem que se tornaram cientistas por minha causa. De vez em quando ouço isso e me faz chorar. É emocionante.


Abaixo Segue uma entrevista do Paul no Programa "The Noite".

janeiro 16, 2015
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